Tenho um Aferidor de Encantamentos. A uma açucena encostada no rosto de uma criança O meu Aferidor deu nota dez. Ao nomezinho de Deus no bico de um sabiá O Aferidor deu nota dez. A uma fuga de Bach que vi nos olhos de uma criatura O Aferidor deu nota vinte. Mas a um homem sozinho no fim de uma estrada sentado nas pedras de suas próprias ruínas O meu Aferidor deu DESENCANTO. (O mundo é sortido, Senhor, como dizia meu pai.)
Daí fiquei pensando, tem dias assim que meu aferidor vai às alturas, e percorre o corpo e descobre o entusiasmo da alma, a alegria que é viver, dias de quarenta graus, em que me sinto o máximo dos super-heróis, o valente, o todo poderoso, dias assim que nenhum salto alto ou terno e gravata me atingem. Dias melhores, como aqueles que vivemos esperando, cantados pelo Jota Quest. Aí o meu aferidor mede minha felicidade, meu sorriso, meu otimismo e minha sensação de que tudo vai dar certo, dias assim que até os outros me são mais caros e ficam mais do meu lado.
Meu aferidor também mede alto quando dá pra ver o sorriso do outro, a alegria ao receber um presente, a vitória, ah! O gozo da vitória! Nota dez às alegrias vividas, aos olhares correspondidos, às pequenas coisas que fazem sentido, à saúde de todos, ao feliz aniversário que recebo, aos abraços e beijos e carinhos e tudo mais.
Mas tem dia que meu aferidor deve medir bem baixinho e dar desencanto ao meu mundo. Porque no meu mundo também vejo e vivencio coisas desagradáveis. Porque o meu mundo também é o mundo do outro e o outro sofre. Meu aferidor dá desencanto à solidão, à tristeza do bêbado, ao menino que anda na carroça catando papelão na rua, ao menino que rouba pra comer, ao menino que não tem roupa, ao menino que pede um brinquedo. Aí o Natal se aproxima e o meu aferidor dá desencanto ao presente que não chega, à ceia que não existe, à pobreza declarada do meu país, a diversidade, a desigualdade e a mentalidade das pessoas do meu país, da minha cidade e do meu mundo.
O meu aferidor vai abaixo quando ligo a TV e quanto escuto as porcarias que ela tem a me oferecer. Vai abaixo quando vejo interrompida a cultura, a vontade própria, quando me deparo com o preconceito, a discriminação, o bandido, o assassinato, a corrupção, o ladrão de bermudão e o ladrão engomadinho, o do subúrbio e o do planalto, a droga que é a droga, a morte que causa a droga, a arma que vem da droga e a droga da injustiça. O meu aferidor tem dias que não suporta e nem funciona.
Aí eu leio Drummond. Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração.
E cadê a solução? Ai, ai, os meus poetas, a minha literatura, que seria de mim?
Fontes: O Aferidor - Manoel de Barros em “Ensaios Fotográficos”.
Poema de sete faces – Carlos Drummond de Andrade em: http://www.memoriaviva.digi.com.br/drummond
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