Contribuições de Christoph Dejours à Análise da Relação Prazer, Sofrimento e Trabalho. Porque os funcionários adoecem tanto no mundo do trabalho?
Marcos Bueno*
No final do século XX, a concepção de saúde foi, gradualmente, tornando-se mais abrangente, multidisciplinar e subjetivas, abarcando o estado de bem-estar físico, mental, social e espiritual, o ser holístico, cujo fundamento absorveu nas noções de multicausalidade e de ênfase na primazia dos valores sociais do trabalho. No dizer Edgar Morin (1990) a ciência com consciência vem influenciando também de forma poderosa o mundo do trabalho, tanto no que tange na organização do trabalho quanto na análise do trabalho. O mundo do trabalho é parte integrante da vida humana e como tal necessita de ser cuidada de forma saudável e com vistas no prazer da vida e do vivido com plenitude.
A relação do homem com o mundo trabalho estabelece uma relação, um status social que não se restringe ao ambiente físico do individuo do trabalho. Pelo contrário, a atividade profissional ou laboral é parte visível e invisível do universo individual e social de cada um, sujeito no mundo, podendo ser traduzida tanto como meio de equilíbrio e de desenvolvimento quanto como fator diretamente responsável por danos à saúde integral.
O livro, Psicodinâmica do trabalho de DEJOURS, Christophe; ABDOUCHELI, Elisabeth; JAYET, Christian. (2007) é uma coletânea de textos inovadores sobre o mundo trabalho em suas múltiplas dimensões e facetas e foi um dos primeiros estudos traduzidos no Brasil ao lado do outro livro de Dejours A loucura do trabalho (1987) e tem despertado um grande interesse, pois coloca em pauta temas até então praticamente desconhecidos, provavelmente devido aos aspectos psicopatológicos ou normóticos da sociedade e das organizações que de forma consciente ou inconsciente tem camuflado as questões relativas ao prazer e principalmente ao sofrimento tanto físico quanto psíquico. Os textos de Dejours e seus colaboradores especialmente da Escola francesa do trabalho tem aberto novas perspectivas de análise da relação prazer, sofrimento e trabalho.
O trabalho de Dejours tem marcado um ponto singular e notável que é o trabalho multidisciplinar envolvendo profissionais de Psicologia, Sociologia, Saúde, Análise Organizacional, Ecologia e questões ambientais do Trabalho e Psicanálise que deu o enfoque psicodinâmico da abordagem Dejouriana.
A escola Dejouriana dá ênfase á organização do trabalho e seus impactos sobre a saúde mental dos trabalhadores de todos os segmentos, tanto no denominado trabalho visível quanto o ainda pouco explorado o trabalho invisível.
No final do século XX, a concepção de saúde foi, gradualmente, foi tornando-se mais abrangente, mas multidisciplinar e subjetiva, abarcando o estado de bem-estar físico, mental, social e espiritual, o ser holístico, cujo fundamento absorveu nas noções de multicausalidade e de ênfase na primazia dos valores sociais do trabalho. No dizer de Morin (1990) a ciência com consciência vem influenciando também de forma poderosa o mundo do trabalho, tanto no que tange na organização do trabalho quanto na análise do trabalho. O mundo do trabalho é parte integrante da vida humana e como tal necessita de ser cuidada de forma saudável e com vistas no prazer da vida e do vivido com plenitude e não no sofrimento e no adoecimento.
A relação do homem com o mundo trabalho estabelece uma relação, um status social que não se restringe ao ambiente físico do individuo do trabalho.Pelo contrário, a atividade profissional ou laboral é parte visível e invisível do universo individual e social de cada um,sujeito no mundo,podendo ser traduzida tanto como meio de equilíbrio e de desenvolvimento quanto como fator diretamente responsável por danos à saúde integral.
O livro, Psicodinâmica do trabalho de DEJOURS, Christophe; ABDOUCHELI, Elisabeth; JAYET, Christian. (2007) é uma coletânea de textos inovadores sobre o mundo trabalho em suas múltiplas dimensões e facetas e foi um dos primeiros estudos traduzidos no Brasil e tem despertado um grande interesse, pois coloca em pauta temas até então praticamente desconhecidos, provavelmente devido aos aspectos psicopatológicos ou normóticos da sociedade e das organizações que de forma consciente ou inconsciente tem camuflado as questões relativas ao prazer e principalmente ao sofrimento tanto físico quanto psíquico. Os textos de Dejours e seus colaboradores especialmente da Escola francesa do trabalho tem aberto novas perspectivas de análise da relação prazer, sofrimento e trabalho.
O trabalho de Dejours tem marcado um ponto singular e notável que é o trabalho multidisciplinar envolvendo profissionais de Psicologia, Sociologia, Saúde, Análise Organizacional, Ecologia e questões ambientais do Trabalho e Psicanálise que deu o enfoque psicodinâmico da abordagem Dejouriana. A escola Dejouriana dá ênfase á organização do trabalho e seus impactos sobre a saúde mental dos trabalhadores de todos os segmentos, tanto no denominado trabalho visível quanto o ainda pouco explorado o trabalho invisível. A contribuição de Dejours envolve os denominados três níveis do comportamento organizacional estudados por Stephen Robbins, ou seja, o nível do individuo, o do grupo e das organizações e sociedades. Todos esses três níveis, micro, meso e macro estão diretamente relacionados com os processos de mudança.
O livro é dividido por uma introdução feita por Edith Seligmann-Silva onde aborda a travessia da psicopatologia enquanto um conceito médico psiquiátrico orgânico e somático para o novo conceito criado por Dejours a Psicodinâmica do trabalho como um novo e revolucionário percurso.
Edith Seligmann-Silva cita Dejours (1987 b):
“O sofrimento designa então, em uma primeira abordagem, o campo que separa a doença da saúde. Dentro de uma segunda acepção, o sofrimento designa um campo pouco restritivo. Ele é concebido como uma noção especifica válida em psicopatologia do Trabalho, mas certamente não transferível a outras disciplinas, notadamente à psicanálise. Entre o homem e a organização prescrita para a realização do trabalho, existe, às vezes, um espaço de liberdade que autoriza uma negociação, invenções e ações de modulação do modo operatório, isto é,uma invenção do operador sobre a própria organização do trabalho,para adaptá-la às suas necessidades,e mesmo para torná-la mais congruente com seu desejo.Logo que esta negociação é conduzida a seu último limite,e que a relação homem-organização do trabalho fica bloqueada,começa o domínio do sofrimento-e da luta contra o sofrimento."
A psicodinâmica do trabalho se define como a análise dos processos psíquicos mobilizados pelo encontro entre um sujeito e os constrangimentos da organização do trabalho. Nos anos 1980, as pesquisas realizadas nos meios de trabalho permitiram descobrir a existência de estratégias coletivas de defesa contra o sofrimento no trabalho.
No capitulo 1 Dejours abordou a carga psíquica (energia mental) de trabalho responsável pela fadiga e stresse, que originalmente teve sua publicação em 1980 e aqui o autor deixa claro o caráter qualitativo e dinâmico da não mensuração da “carga psíquica” e é necessária ser mensurável devido a estar inserida na subjetividade, mas tão real enquanto vivência articulada às exigências ou pressões do mundo do trabalho. E aqui Dejours aproxima a Psicopatologia do trabalho da Ergonomia que tem na carga psíquica um de seus eixos centrais.Os estudiosos da Qualidade de Vida no Trabalho-QVT, também tem se debruçado sobre esse tema de fundamental importância para o estudo do prazer e do adoecimento(sofrimento).Quantas pessoas sofrem de depressão, ansiedade, transtornos do pânico,TOC (transtorno obssessivo-compulssivo), cardiopatias, alergias, problemas de pele, úlceras, gastrites,medos diversos,etc., frutos do sofrimento causados pelo trabalho. Aqui a autor aborda a questão da organização do trabalho, cujo papel determinante é mensurar o sofrimento mental e o segundo aspecto é quanto a liberdade e autonomia como recursos necessários à estabilidade psicossomática (corpo-mente).
No capitulo 2 é abordado o grande desafio Desejo ou motivação? Eis a questão!A interrogação psicanalítica sobre o trabalho é também um estudo conceitual de grande interesse segundo o autor. A motivação sempre foi um dos principais mistérios de interesse das organizações. Os autores mergulham na busca de entender motivação e o desejo, primeiro a partir de conceitos, depois nas situações concretas.Enquanto o desejo está num nível mais interno, no Id, na casa dos impulsos, da pulsão, da energia mais inconsciente que aparece sobre a cara das necessidades e nem sempre compreendida,mas muito explorada pela publicidade, propaganda e pelo marketing a serviço das organizações e do capital, a motivação é um processo do consciente, está num nível mais visível, percebível,mais racional, motivos para agir, quais os motivos, as razões que o individuo tem para agir.Os motivos poder remeter ao desejo.O desejo quando não resolvido vai gerar a angustia que é um sofrimento psíquico que poderá desdobrar em sofrimentos no corpo ou doenças psicossomáticas,muitas das vezes de diagnóstico mais complexos,onde o individuo pode ficar medicando os sintomas(problema) sem trabalhar as causas, como fazemos nos processos de qualidade e portanto sempre é possível vir a recidiva da doença não curada,apenas adormecida pelo uso do medicamento.
No capitulo três é abordado Trabalho e saúde mental: da pesquisa à ação, examina a gravidade dos riscos que ameaça a segurança quando os procedimentos de trabalho se chocam com sua viabilidade, numa situação em que ocorre um incremento da rigidez do controle (Taylor) administrativo sobre uma área de manutenção da usina nuclear(estudo de caso do livro).O próximo texto trata da metodologia adotada sempre com entrevistas coletivas,onde se consegue uma abrangência maior das respostas pelos autores na realização da pesquisa de campo.
É abordado o caso de uma usina nuclear francesa que nos remete ao debate tão atual dos grandes e graves riscos tecnológicos e da questão ambiental mundial. A visão de Dejours e sua equipe estão intimamente interligadas com as preocupações socio-ambientais e consciência profunda da ecologia humana e ambiental do físico Frtjof Capra.
O trabalho relevante que o Serviço de Medicina e Segurança do Trabalho tem potencial de assumir no diagnóstico de situações de risco também pode ser inferido da leitura deste estudo de caso, o que assegura a importância dos conhecimentos de Psicopatologia do trabalho na formação desses profissionais e a conexão aberta com os níveis gerenciais com a área de Segurança e Medicina do Trabalho. Infelizmente muitos gerentes, diretores e executivos ainda estão profundamente analfabetos em relação a segurança e medicina do trabalho e acham esse serviço atrapalha o seu trabalho e com essa atitude acabam provocando muitos casos de adoecimento no trabalho, prejudicando a organização, o trabalhador, sua família e a sociedade.O valor que o Ministério da Saúde e Previdência Social arcam com tratamentos e afastamento por doenças do trabalho equivale ao custo de uma guerra do Vietnam.
O Brasil gasta R$ 32 bi por ano com acidentes de trabalho (ou 4% do Produto Interno Bruto-PIB) e a bagatela de US$ 76 bilhões por ano com mortes e lesões causadas por doenças do trabalho. Estão incluídas nesse cálculo as indenizações pagas pela Previdência Social, os custos em saúde e a perda de produtividade do profissional. Além de sofrimento e custos sociais incalculáveis, os acidentes de trabalho geram um prejuízo financeiro significativo para o Brasil. De acordo com a Previdência Social, do valor total de gastos, cerca de R$ 8 bilhões correspondem a benefícios acidentários e aposentadorias especiais. No Dia Nacional de Prevenção de Acidentes de Trabalho (27 de julho), dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostram que o gasto no mundo corresponde a 4% do Produto Interno Bruto Mundial, ou seja, tudo que os países produzem em serviços e bens. De acordo com o médico e consultor da OIT, Zuher Handar, uma análise feita pela organização mostra que esses 4% são 20 vezes maior que toda a ajuda oficial do mundo direcionada ao desenvolvimento e sem falarmos na ajuda humanitária contra a fome e a violência a e as vitimas das “guerras santas ou frutos das sombras humanas, arquétipo coletivo milenário da profunda normose humana".Então esses números mensuráveis do sofrimento e do adoecimento causam no mínimo uma sensação de terror em quem tem consciência e perguntamos :qual o preço da ignorância humana.Dejours incomoda porque nos desperta de sono narcotizado pela força do poder das organizações denominadas por Max Pagés de hipermodernas em tecnologia ,mas atrasadas como prisões psíquicas modernas.A alegoria da caverna de Platão está super atualizada.
O ultimo texto do livro de Dejours aborda o itinerário teórico em psicopatologia do trabalho, a construção do conhecimento, até o momento da publicação deste trabalho em 1990. O itinerário coloca o histórico percorrido em duas etapas, na primeira, o cenário é ocupado pelo estudo do sofrimento e de seu surgimento a partir do confronto psiquismo\ organização do trabalho. Suas perspectivas são aí privilegiadas: uma é a que se volta para a dinâmica geradora deste sofrimento, e a outra é a que se concentra na análise das estratégias defensivo-individuais e coletivas-que são suscitadas pelo mesmo sofrimento segundo os autores.
Cabe aqui ressaltar que o trabalho Dejouriano prossegue nos anos 90, quando começam a ser publicados novos e inovadores trabalhos,especialmente no Brasil e na Unb com as dissertações e teses de doutorado sob a supervisão da Profa. Dra.Ana Magnólia Mendes.
Dejours na conclusão coloca que o desafio que a psicodinâmica tem pela frente e é um termo cunhado na psicanálise e se dispõe a atender pode ser identificado a partir de muitas descobertas relatadas nos textos da presente coletânea: é o de superar a atual distancia entre organização prescrita e organização real do trabalho, levando em conta todos os perigos que tal distância atualmente representa para a saúde, para a segurança e para a qualidade do que é produzido. Afinal o que o mundo produz?
Deste ponto de vista, a pesquisa em psicopatologia do trabalho é um tempo de elaboração, ou melhor, de perlaboração do vivenciado e das condutas transformadas em conhecimentos e postos imediatamente á disposição para a ação. Através da visão lúcida da Psicopatologia do trabalho e mais recentemente nessa obra como Psicodinâmica do trabalho o trabalho passou a dar forma como um operador fundamental na própria construção do sujeito, ou como poderíamos dizer operador do trabalho, operador do desejo, um encontro necessário entre o real e o imaginário, entre o objetivo e o subjetivo, entre as prisões psíquicas e a liberdade com autonomia consciente e madurecida. O trabalho no dizer dos autores não é apenas um teatro aberto ao investimento subjetivo, ele é também um espaço de construção do sentido e, portanto, de conquista da identidade, da continuidade e historização do sujeito. Continuando, Dejours, dessa forma, ao lado da economia das relações amorosa, a dinâmica das relações sujeito-organização do trabalho poderá ocupar um espaço significativo no processo de reapropriação e de emancipação (Habermas,1976) de um homem sempre em luta contra a ameaça de tornar-se doente, sempre em luta para conservar sua identidade na normalidade, sempre em busca de ocasiões para trazer uma contribuição original à construção social,num mundo em movimento que,tendo em confiança a clinica,parece tão essencial quanto aquele que anima sua demanda de amor.O homem é um sujeito que é um projeto inacabado,em eterna construção amorosa.
Liberdade-Fraternidade-Igualdade!Utopia, sonho ou realidade?
*Marcos Bueno, psicólogo, especialista em administração pela FGV e pela UFU, mestre em engenharia de produção pela UFSC e doutorando em psicologia pela UCG,professor no CESUC de Catalão-GO.
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